29 de abril de 2026

Quando a precisão no idioma é algo crítico: liderança como catalisadora na Syngenta

Dados recentes do Relatório de Maturidade de Aprendizado Corporativo da EF Corporate Learning de 2026 revelam que, embora 94% das empresas já utilizem inteligência artificial em seus programas de idiomas, apenas 29% a implementaram de forma completa. Se a adoção já é ampla, o que ainda impede as organizações de avançar em maturidade?

As discussões sobre aprendizagem com IA costumam focar no engajamento dos colaboradores ou na prontidão digital. No entanto, esse olhar muitas vezes deixa de lado um fator decisivo: o envolvimento da liderança.

Na Syngenta, empresa global de tecnologia agrícola presente em mais de 90 países, a precisão na comunicação é essencial para garantir segurança, conformidade e inovação. Para equipes regulatórias que lidam com aprovações em diferentes mercados, a comunicação técnica e jurídica precisa impacta diretamente o acesso a mercados e os resultados do negócio.

Teresa Miralles, líder de Talento e Cultura na Syngenta, explica como o apoio da liderança foi determinante para estruturar uma estratégia avançada de aprendizagem de idiomas com uso de IA e ampliar essa prática em toda a organização.

A Syngenta prioriza o desenvolvimento de idiomas para líderes. Como isso impacta a empresa como um todo?


Muitas organizações globais ainda subestimam uma barreira importante para escalar o coaching: a falta de confiança no uso do idioma por parte da liderança. Embora entendam os modelos de coaching, muitos líderes têm dificuldade em aplicá-los por não dominarem o vocabulário necessário para conduzir conversas mais profundas e orientadas ao desenvolvimento.

A experiência da Syngenta mostra que o desafio está na prática. Sem acesso às palavras certas, como “premissa”, “perspectiva”, “limitação” ou “aspiração”, os líderes hesitam e o impacto do coaching diminui. A confiança na comunicação influencia diretamente a qualidade dessas interações.

Por isso, o treinamento de idiomas precisa ir além do conteúdo técnico e estar integrado ao desenvolvimento de habilidades de liderança. Quando as empresas criam ambientes seguros para que líderes pratiquem o idioma em situações reais, o engajamento aumenta e o impacto no negócio se torna claro, com maior retenção, equipes mais inovadoras e colaboradores mais engajados.

Os dados da EF reforçam esse ponto: programas de idiomas mais estruturados e conectados aos objetivos de desenvolvimento geram níveis mais altos de engajamento. Entre as organizações com maior maturidade, 92% relatam alto engajamento e apresentam quase o dobro de chance de ter baixa rotatividade. Essas empresas também criam ambientes em que líderes se sentem à vontade para reconhecer e desenvolver suas próprias competências.

Como a liderança influencia o sucesso das iniciativas de aprendizagem ou limita seu impacto?


Programas isolados, sem conexão com a estratégia, tendem a ter impacto limitado. Na Syngenta, toda iniciativa de L&D começa pela definição clara do desafio de negócio ou da competência a ser desenvolvida. Os programas são construídos em conjunto com as áreas, alinhados às necessidades reais e conduzidos com participação ativa das lideranças. Isso garante que o desenvolvimento seja incorporado ao dia a dia do negócio, e não tratado como uma iniciativa isolada de RH.

Um bom design de programa começa com esse alinhamento estratégico. Embora a competência em idiomas seja essencial para a organização, as prioridades podem variar bastante entre regiões. O desafio está em definir quais idiomas desenvolver, para quem e qual a prioridade, considerando os recursos disponíveis. Metas claras, acompanhamento da evolução e avaliação contínua de impacto garantem que as iniciativas permaneçam conectadas aos objetivos estratégicos.

Em parceria com a EF Corporate Learning, a Syngenta estruturou um modelo que combina análise de fala com IA, simulações de conversas com avatares, trilhas personalizadas e feedback de escrita, sempre com o suporte de instrutores experientes que trazem contexto e sensibilidade cultural.

A alta liderança tem sido essencial para o sucesso deste programa e de todas as nossas iniciativas de aprendizagem. O resultado depende do apoio dos líderes, exemplo prático e integração do aprendizado às expectativas de desempenho. Quando executivos investem no próprio desenvolvimento, eles legitimam o aprendizado em toda a organização. No fim, as empresas que avançam mais rápido não são as que têm as melhores ferramentas, mas aquelas cujos líderes dão o exemplo.

"Organizações que tratam a aprendizagem com IA de forma estratégica e com liderança comprometida tendem a obter mais resultados: fortalecem a colaboração, aceleram a inovação e formam líderes preparados para atuar globalmente."

–  Teresa Miralles, Líder de Talento e Cultura, Syngenta

Quais são suas recomendações para líderes de RH que estão começando agora a usar IA na aprendizagem?


1. Identifique e trate a resistência à IA

Prepare-se para dinâmicas organizacionais que talvez você não tenha mapeado, pois a aprendizagem com IA tende a expor lacunas de competências e padrões culturais antes invisíveis. A implementação frequentemente revela maior complexidade à medida que a adoção da tecnologia se cruza com dinâmicas de poder, diferenças geracionais e atitudes culturais em relação ao aprendizado. Alguns líderes adotam rapidamente o feedback orientado por dados e se tornam patrocinadores. Outros questionam o valor ou encontram razões para dizer que “isso não vai funcionar para nós”.

Na Syngenta e em outras organizações com as quais trabalhei, o sucesso começa pela antecipação dessa resistência. Antes de iniciar um piloto com IA, é fundamental alinhar com a liderança o que significa sucesso, como o progresso será medido e como a empresa vai reagir quando os dados mostrarem necessidades de desenvolvimento em todos os níveis. Também é essencial criar um ambiente seguro para que líderes se coloquem como aprendizes. Sem isso, o piloto pode até funcionar do ponto de vista técnico, mas dificilmente ganha escala na organização.


2. Conecte os recursos de aprendizagem aos resultados do negócio

Comece com um piloto focado em uma competência crítica, em que o idioma tenha impacto direto nos resultados do negócio. Priorize recursos que realmente agreguem valor à aprendizagem, como análise de fala, prática de conversação e trilhas personalizadas, sempre combinados com o suporte de instrutores qualificados, que trazem contexto e nuances culturais.


3. Avalie resultados de forma mais completa

Avalie mudanças de comportamento e impacto no negócio, não apenas taxas de conclusão. Após o piloto, é importante capturar os aprendizados de forma estruturada, considerando: que valor foi gerado? Para quem? Em quais condições?

O que funciona em uma região ou contexto pode não funcionar da mesma forma em outro. Um recurso que impulsiona o engajamento na América do Norte, por exemplo, pode precisar de ajustes na Ásia-Pacífico. As organizações que avançam mais rápido adotam uma abordagem estruturada para a aprendizagem e constroem seus investimentos com base em dados. A aprendizagem com IA exige o mesmo nível de rigor de qualquer iniciativa estratégica.

Colaboradora

Teresa Miralles, Líder de Talento e Cultura na Syngenta

Teresa é líder no departamento de Talento e Cultura da Syngenta. Ela gerencia e conduz projetos estratégicos globalmente, com foco principalmente no aprimoramento do desenvolvimento organizacional e do engajamento dos funcionários.